terça-feira, 4 de novembro de 2008

É a cultura, ex-estúpido


Este é o título duma das crónicas de Ricardo Araújo Pereira, alguém que dispensa apresentações para o pessoal da minha idade, mas que para quem não sabe é aquele rapaz mais alto dos Gato Fedorento. RAP escreve esta crónica de modo humorístico, como o faz sempre, com o objectivo de mostrar o quanto a cultura é de facto importante no mundo e criticar o quanto ela é 'desprezada' no nosso país. Dito isto, passo a transcrever as suas palavras:


"O mundo, tal como o conhecemos, pode terminar. O que não é necessariamente mau, sobretudo se pensarmos que a Brandoa faz parte do mundo. A causa do Apocalipse é esta: o Público divulgou um estudo segundo o qual a cultura tem mais peso na economia europeia do que o sector automóvel. Não creio que Portugal contribua muito para isso, até porque, por coincidência, a altura em que nós, enquanto povo, demonstramos mais cabalmente que não temos cultura nenhuma é quando estamos ao volante de um automóvel. Além disso, há muito mais gente com automóvel, em Portugal, só que com qualquer coisa a que possamos chamar cultura. Mas este estudo terá uma consequência que vai abalar as fundações da nossa sociedade: se a cultura dá dinheiro, acabou o problema dos subsídios. Quando um sector de actividades dá dinheiro, pára de receber subsídios. Recebe dinheiro na mesma, até mais do que recebia, mas deixa de se chamar subsídio. Passa a chamar-se «investimento», ou «incentivo fiscal», ou «apoio financeiro ao crescimento da produtividade».
Mais: as mesmas almas que hoje clamam contra o escândalo dos subsídios que o Estado oferece de mão beijada a essa cáfila de gente mal lavada a que se convencionou chamar «artistas» hão-de clamar contra o desprezo a que o Estado vota um grupo de heróis que tanto contribui para a nossa economia, e que se chama, com letra grande, Artistas (embora muitos deles continuem a estar mal lavados).
Há-de haver histórias de cantores, actores e bailarinos infelicíssimos, que sonharam ser advogados mas foram obrigados pelos pais a enveredar por uma carreira artística, apenas porque dá mais dinheiro. Escritores, pintores e músicos frustrados que não puderam singrar como empregados de escritório por causa da tirania de progenitores gananciosos.
Há-de haver patos-bravos a comprar editoras e a encomendar aos escritores dois quilos de romance, duzentas gramas de poesia e meio quilo de ensaios, porque parece que aquilo rende mais que comercializar Mercedes em leasing.
O problema é que, mal se confirme que a cultura dá dinheiro, há artistas que vão querer mudar de actividade. Certos artistas têm do dinheiro uma opinião muito negativa, em parte provocada pela pouca convivência que têm com ele. Se privassem mais com o dinheiro, estou certo que aprenderiam a apreciá-lo. Para certos artistas, há uma incompatibilidade irresolúvel entre o sucesso financeiro e a verdadeira arte. Quando souberem que a cultura está a frente dos carros na economia europeia, alguns dos nossos artistas, num gesto carregado de significado artístico, vão procurar emprego num stand da Renault.
Dito isto, espero ter ofendido certos economistas parolos e certos artistas pedantes. Quando comem todos, é mais bonito."


Utilizando uma frase da RFM, visto que me falta imaginação para escrever coisas originais, "vale a pena pensar nisto".

2 comentários:

Anónimo disse...

Wazaa
A variedade é importante sim :)

Deixo-te uma proposta, um desafio digamos: procura poemas ou textos de Mário de Sá-Carneiro, não muito conhecidos, analisa-os, escolhe um e mostra. Porque cultura nunca é demais e conhecer um pouco melhor esse grande poeta seria fenomenal. Pelo menos para mim, que não tenho grande contacto xD

Beijo cultural

Lorany disse...

Gostei.'cáfila de gente mal lavada' XDD
E de qual crónica deste homem é que eu não gosto?

Boa iniciativa o blog, ganhas aqui uma subscritora ^^
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